[ENTREVISTA]
Confira a entrevista com Marina Grandolpho sobre a oficina Dispositivos de escrita, que começa no dia 27 de novembro.
Astrolabio: O título da oficina Dispositivos de escrita sugere um olhar técnico e ao mesmo tempo poético sobre o fazer literário. O que você entende por “dispositivo” no contexto da escrita criativa?
Marina Grandolpho: Se procurarmos a palavra dispositivo no Google (já que hoje em dia quase ninguém utiliza dicionário físico – risos), encontraremos em uma das definições algo como “relativo à disposição”, além de, claro, definições que dizem respeito a conjuntos de ações que visam um fim e, ainda, um grupo de componentes que se integram para formar um objeto. Pois bem, penso que a escrita requer, antes de mais nada, justamente a disposição. O movimento primário do escrever é atitudinal, ou seja: “bunda na cadeira”, lápis e papel na mão ou computador ligado com um documento em branco desafiando a retina. Uma vez conquistada a disposição, aí sim precisaremos pensar em ações e componentes que nos ajudarão a chegar ao objetivo maior: o texto finalizado. O interesse, a partir dessa oficina, é incentivar esses três movimentos plausíveis: disposição, ação e integração de ferramentas.
A: A oficina começa com o encontro chamado “A escrita possível”, que traz uma variedade enorme de temas como ponto de partida. Por que é importante, antes de tudo, olhar para o que parece “escrevível”?
MG: Porque, ao mesmo tempo em que tudo pode ser escrevível, no momento que confrontamos a nossa escrita tudo pode parecer banal e já dito. É comum desacreditarmos da potencialidade de um tema elegido por de repente soar como algo desimportante ou que já foi contado. O lance é que a escrita pode e deve abrir espaço para qualquer tema, os explorados e os nunca explorados – se é que eles existem –, os políticos e os não políticos – embora tudo, no fundo, seja político. Carlos Drummond de Andrade não hesitou em falar da pedra no meio do caminho e foi criticado por isso, Adélia Prado e as miudezas do cotidiano inspiram muitas outras poetas contemporâneas e o enredo que inicia com uma tartaruga encontrada num apartamento alugado, caso de romance de Julia Dantas, é o disparador de uma narrativa que faz ao mesmo tempo rir e emocionar. Pentear uma sobrancelha ou lavar uma panela pode ser matéria de escrita, assim como histórias emaranhadas que culminam num rio que transborda. Quando estamos falando de escrita, a mosca que pousou na sopa pode ser investigada – não importa que Raul Seixas tenha emplacado uma música mencionando este evento.
A: Ao longo da oficina, você propõe leituras que vão de Tchékhov a Conceição Evaristo, de Lydia Davis a Machado de Assis. O que orientou a escolha desse repertório tão diverso?
MG: Acredito que um repertório vasto e diverso permite o contato com temas e estilos diferentes. Essa variedade permite dar mais de um horizonte a quem deseja se lançar na escrita. É bebendo em várias fontes que descobrimos a nossa preferida e, também, hidratamos a nossa própria pena, encontrando os temas que nos são urgentes, a estrutura e o estilo que melhor acomoda a nossa vontade de escrever.
A: No segundo encontro, você discute ritmo, silêncio, pontuação, forma. Como o ritmo pode funcionar como força invisível que sustenta (ou desmorona) um texto?
MG: Sempre que penso como o ritmo de um texto pode nos tragar para dentro dele lembro de Saramago. Ensaio sobre a cegueira foi o primeiro livro que li dele. Eu era jovenzinha, tinha uns 19 anos. Fiquei uns dois dias direto lendo o romance, não conseguia parar. Na época, não entendia a razão, depois entendi que era o ritmo da escrita, construído muito por meio das escolhas de pontuação, que me transportou quase que para dentro da história naquele desespero de saber o que aconteceria depois, e depois, e depois… O problema é que da mesma maneira que um ritmo pode nos trazer para dentro da leitura, pode também nos afastar, mas, paro por aqui, porque não quero dar spoiler… risos.
A: Você menciona o conceito de “mostrar em vez de dizer” e também a teoria dos dois contos, de Ricardo Piglia. Como essas ideias podem ser aplicadas na prática por quem está escrevendo?
MG: Na escrita, podemos fazer escolhas menos literais e diretas para apresentar uma ação ou até mesmo uma sensação. Por exemplo, quando queremos dizer que uma pessoa está ansiosa, em vez de dizer “Maria ficou ansiosa com aquela situação”, podemos mostrar as ações que fazem o leitor inferir que ela estava naquele estado, como: ela suava frio, sentia seu coração acelerado, andava de um lado para o outro, acendia um cigarro atrás do outro etc. Na vida real trabalhamos inferindo e especulando coisas o tempo todo, aquilo que fica no ar muitas vezes torna tudo mais interessante. Em geral, quanto menos as pessoas e as situações nos são dadas/apresentadas de bandeja, mais interessados ficamos. Na ficção, de certo modo, também é assim. Isso nos leva a pensar na teoria do Piglia, que é mais difícil de exemplificar aqui, mas também envolve o mistério: aquilo que é contado pode apresentar uma história na superfície, e outra no subsolo. Suspeito que propor este jogo de inferir e especular com o leitor pode ser uma estratégia interessante para construir duas histórias em uma.
A: Em um dos encontros, vocês leem gêneros não literários para provocar a criação. Que lugar você dá ao hibridismo e à fusão entre gêneros no processo criativo contemporâneo?
MG: Fico com a impressão que as fronteiras entre os gêneros literários estão cada vez mais borradas, além disso a ficção e a não ficção têm se encontrado bastante. Isso me parece fantástico, mas também seria triste se toda a produção seguisse a mesma receita. Acredito que seja possível borrar os limites todos sem deixar de produzir aquilo que deu origem ao borrão, que possa existir um movimento de ruir e outro de manter a tradição – naquele espírito de ode e deboche, que temos seguido bem até então.
A: A oficina termina com a leitura dos textos produzidos. O que muda em um texto quando ele é lido em voz alta, partilhado, escutado? Qual o valor desse momento de troca?
MG: Acredito que a leitura em voz alta é capaz de evocar a força de um texto e também apontar onde faltou energia. Inclusive, é muito comum escritores lerem o livro inteiro em voz alta (mais de uma vez) antes de mandar o original para edição. Em um contexto de oficina, essa leitura é compartilhada e ganha uma dimensão ainda maior, porque ela vai ser percebida por mais de um ouvido e me parece positivo ouvir de outras pessoas os pontos que tocaram mais, ou menos, cada uma delas durante a escuta.
A: Para quem sente que está escrevendo “fora da norma”, “estranho demais” ou “simples demais”, o que você costuma dizer? Existe algum tipo certo de escrita?
MG: Vejo como algo positivo a escrita que apresenta uma postura de rebeldia em relação à norma, que procura escapar do óbvio, inovar, desconstruir. Quanto à escrita simples, é importante entendermos que simples é diferente do simplismo. É possível escrever de forma simples e ainda assim produzir um texto sofisticado. Então eu diria o seguinte para essas pessoas: continuem. Definitivamente, não existe um tipo certo de escrita, e a prova disso é que raramente existe unanimidade em prêmios literários ou no próprio gosto público.
Gostou da entrevista? Participe da aula aberta com Marina Grandolpho na quinta, 13/11 às 19h BRT. Além de ser gratuita, é a chance perfeita de experimentar, ao vivo, um pouquinho do que vem por aí.
[PARTICIPE DA AULA ABERTA] https://forms.gle/HuS2gCioDW5Rn66z7