ASTROLABIO: A Ilíada e a Odisseia são épicos atribuídos ao poeta Homero que influenciam a construção de narrativas há mais de 2700 anos. Você pode pontuar algumas diferenças marcantes entre essas duas obras?
Marcus Reis Pinheiro: A Ilíada é centrada em um conflito entre Aquiles e Agamemnon, dois heróis gregos, e narra os acontecimentos da guerra de Tróia. A Odisseia narra as aventuras de Ulisses para voltar para casa. A Ilíada é mais marcial, marcada pelo conflito aberto da guerra de Troia. A Odisseia é marcada por conflitos domésticos, como a espera tediosa do retorno do herói e do movimento de um jovem virando adulto. Os personagens secundários da Ilíada são outros heróis, já os da Odisseia são monstros, bruxas e ninfas. A Ilíada é um poema da guerra e do ódio de Aquiles, a Odisseia retrata o retorno de Ulisses para sua casa.
A: Ulisses/Odisseu é uma figura que, além de recusar a imortalidade oferecida por Calipso, atravessa uma aventura com lotófagos, sereias, monstros marinhos, gigante de um olho só. O que significa ser um herói na obra de Homero? E qual denominação você prefere usar para esse personagem: Ulisses ou Odisseu?
Marcus: O nome utilizado na Odisseia é Odisseu, mas o termo Ulisses é tão difundido em nossa cultura que não acho errado utilizá-lo. Gosto dos dois termos. Ser um herói em Homero é acima de tudo participar de uma glória (kléos) singular que o eleva à certa imortalidade que o canto do poeta inspirado pelas Musas confere. Não se trata de uma imortalidade post-mortem, mas uma imortalidade da história de sua vida que é recontada pelo aedo, poeta-cantor. Essa glória é fruto de suas façanhas, conquistadas a partir de suas virtudes tanto físicas, como força, destreza e beleza, quanto espirituais como inteligência, retórica e diplomacia. Em meio às aventuras que lhe conferem tal glória, o herói está sempre no perigo de cometer um excesso ou uma hybris, especialmente devido à tentação da prepotência que sua condição lhe possibilita. Assim, o herói vive na tensão entre glória (kléos) e excesso (hybris), marcado por um forte sentido de destino que norteia suas aventuras. O seu destino está intimamente vinculado aos deuses, que agem de modo bem próximo ao herói ao longo de sua trajetória.
A: A literatura grega é vista por alguns como algo para eruditos. O que você diria para pessoas que gostam de ler e de escrever, mas ainda não leram a Odisseia, de Homero?
Marcus: Claro que um texto de mais de 2700 anos apresenta dificuldades para ser lido, mas ao mesmo tempo, as histórias de Homero ainda são muito influentes em diversos níveis de nossa cultura. Conhecer Homero é conhecer um pouco de nós mesmos, pois as histórias homéricas perpassam a nossa cultura mesmo de modo que não temos tanta consciência. Assim, o que penso ser proveitoso de uma leitura guiada da Odisseia é proporcionar os instrumentos que possibilitem o leitor adentrar com mais facilidade e se reconhecer ali em textos tão antigos.
A: Seu curso no Astrolabio propõe uma leitura guiada. Para quem nunca fez isso: como funciona e o que a/o participante pode esperar dessa experiência coletiva?
Marcus: A ideia central do curso é oferecer subsídios para uma leitura aprofundada de um texto muito antigo. Iremos apresentar a estrutura geral da Odisseia, suas partes significativas, e ler em conjunto trechos relevantes e famosos da história de Odisseu. Quando se tem uma noção mais aprofundada da dinâmica dos deuses e dos heróis gregos, a leitura torna-se mais próxima e vital para um leitor contemporâneo.
A: A leitura guiada será dividida em quatro encontros semanais (01/06, 08/06, 15/06 e 22/06). Pode nos contar um pouquinho sobre como foi feita essa divisão e o que as/os participantes podem esperar de cada encontro?
Marcus: Em um primeiro encontro, vamos fazer uma apresentação da árvore genealógica básica da mitologia grega, especialmente de seus deuses e seus nomes, como os epítetos. Também vamos tratar do gênero literário do épico especialmente de Homero que tem base na oralidade. As três aulas seguintes serão para esmiuçar as três partes principais da Odisseia, a Telemaqueia (história do filho de Odisseu em busca do pai), os cantos de Ulisses (em que nosso herói conta suas principais aventuras nos 10 anos que ele leva para voltar para casa desde o fim da guerra de Tróia) e do retorno do herói (quando ele finalmente volta para Ítaca, sua casa e reencontra a mulher e o filho). Nestas aulas, iremos ler com calma passagens relevantes que dão expressão a cada uma dessas partes.
A: Você pode destacar um ou alguns versos de que gosta muito presentes na Odisseia?
Marcus: Toda a Odisseia pode ser vista como um meta-poema, pois trata-se de um grande canto em louvor ao poeta e narrador, sendo que Ulisses se torna ele mesmo um narrador de suas aventuras. Para mim, um momento crucial da trama é quando ele encontra o poeta Demôdoco e afirma
“Demódoco, a ti louvo eu mais que a qualquer outro homem, quer tenha sido a Musa a ensinar-te, quer o próprio Apolo. É com grande propósito que cantas o destino dos Aqueus — tudo o que os Aqueus fizeram, sofreram e padeceram — como se lá tivesses estado ou o relato ouvido de outrem.” (trad. Frederico Lourenço)
A: A Odisseia já foi adaptada para filmes e séries algumas vezes e, para este ano, está marcada a estreia de uma superprodução dirigida por Christopher Nolan. Você recomenda alguma adaptação já feita? Está animado para o filme de Nolan?
Marcus: Estou muito animado para o filme de Nolan, apesar de sempre ficar meio decepcionado com essas adaptações.
Gostou da entrevista? Participe da aula gratuita com Marcus Reis Pinheiro na segunda, 25 de maio, das 19h30 às 20h BRT. Além de ser gratuita, é a chance perfeita de experimentar, ao vivo, um pouquinho do que vem por aí e ganhar um cupom exclusivo para se inscrever na leitura guiada.